
O cenário geopolítico global está novamente em ebulição, com o Oriente Médio no centro das atenções. A trégua negociada em junho entre Estados Unidos e Irã ruiu, dando lugar a uma intensa troca de ataques que levanta a preocupação de que a região esteja à beira de mais uma “guerra sem fim”. Este termo, cunhado para descrever conflitos prolongados sem solução política duradoura, ecoa as experiências americanas no Iraque e Afeganistão, e agora se aplica à crescente tensão entre Washington e Teerã .
A Escalada dos Ataques e o Risco de Retaliação Mútua
A aviação militar dos EUA intensificou seus ataques contra alvos em todo o Irã, que, por sua vez, tem respondido com bombardeios, drones e mísseis contra posições americanas e aliados regionais . Essa lógica de retaliação mútua é um ciclo perigoso que, segundo Megan Sutcliffe, analista de segurança da Sibylline, aproxima o mundo do pior cenário possível: a retomada de um conflito em grande escala .
O Irã tem demonstrado sua capacidade de resposta atingindo locais em vários países do Golfo e, crucialmente, interrompendo a navegação no Estreito de Ormuz . Este estreito é uma artéria vital para o comércio global, por onde passa cerca de um quinto do petróleo e gás exportados ao mundo . Além disso, os rebeldes houthis do Iêmen, apoiados pelo Irã, impuseram um bloqueio naval à Arábia Saudita no Mar Vermelho, ameaçando uma segunda rota estratégica crucial para o tráfego marítimo .
O Dilema de Ormuz e a Superioridade Militar Americana
Apesar da ampla superioridade militar dos Estados Unidos, que já realizou centenas de ataques no Irã, Teerã ainda consegue interromper o tráfego em Ormuz . Kelly Grieco, do Stimson Center, explica que o Irã não precisa de um arsenal massivo para isso. Mesmo com 5% de sua capacidade residual de mísseis e drones, o país pode efetivamente ameaçar a navegação no estreito . A dificuldade em localizar alvos móveis e amplamente distribuídos, como os drones Shahed, contribui para essa persistente capacidade iraniana .
Os objetivos dos EUA no conflito têm se alterado ao longo do tempo, passando da retórica de mudança de regime e eliminação do programa nuclear iraniano para a degradação das capacidades militares do país, e agora, mais imediatamente, para a reabertura do Estreito de Ormuz . No entanto, para Teerã, a capacidade de ameaçar Ormuz é uma das poucas formas eficazes de penalizar os EUA e seus aliados, o que torna difícil para os líderes iranianos abrirem mão dessa vantagem sem concessões significativas .
Esforços Diplomáticos e a Posição de Trump
Os esforços diplomáticos para desescalar o conflito não cessaram, com o ministro do Interior do Irã, Eskandar Momeni, viajando ao Paquistão em busca de negociações . Contudo, as perspectivas de avanço são pequenas. O presidente dos EUA, Donald Trump, manifestou pouco entusiasmo por novas negociações, afirmando que os americanos “não têm interesse em se reunir” e que a campanha aérea poderia ser intensificada . Autoridades iranianas, por sua vez, advertiram a Casa Branca a não atacar instalações nucleares, sob risco de uma grande escalada .
Lições do Passado: Iraque e Afeganistão

Para alguns observadores, a guerra contra o Irã evoca lembranças das intervenções militares americanas no Iraque (2003–2011) e no Afeganistão (2001–2021) . Esses conflitos demonstraram que a superioridade militar não garante o sucesso da campanha, e que adversários mais fracos podem se adaptar, utilizando táticas assimétricas para compensar a desvantagem . No Irã, o uso de drones baratos e lanchas de alta velocidade para interromper a navegação em Ormuz é um exemplo dessa adaptação .
Grieco compara a situação atual com a do Iraque durante a década de 1990 e até a guerra de 2003, quando os EUA impuseram uma zona de exclusão aérea. Ela sugere que o resultado pode ser um compromisso de longo prazo, fortemente centrado no uso da força aérea, sem uma perspectiva clara de término .
A Necessidade de um Acordo e as Implicações Globais
Ainda é possível desescalar, mas a probabilidade é baixa . Grieco enfatiza que o conflito terá de ser resolvido na mesa de negociações, especialmente a questão do Estreito de Ormuz, que mantém a economia global refém .
Enquanto ambos os lados continuarem escolhendo a força em vez da negociação, o conflito poderá se arrastar por anos, transformando-se em mais uma “guerra sem fim” americana, com profundas implicações para a estabilidade regional e global, incluindo o impacto nos mercados de energia e, consequentemente, na economia mundial.